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sábado, 11 de junho de 2011

Conversas com o Diabo Part.1

Outro cigarro acesso e a fumaça começa a subir aos poucos,sempre são assim noites frias como a de hoje,o pobre Diabo ainda não se cansou de me esperar,já faz algumas horas que ele fica me observando dentro da escuridão.Vejo seus pequenos olhos amendoados e o pouco de cabelo que ainda lhe cai sobre o olho direito-realmente ele é muito diferente das histórias que eu ouvia quando ainda ia na igreja-(quando ainda era apenas uma criança).Seus pequenos lábios,proporcionais aos seus olhos,mastigam de um lado para o outro um pedaço de filtro de cigarro já queimado há algum tempo...
Sinto vontade de perguntar-lhe qual seria a graça dele essa noite ou o que estaria fazendo por essas ruas tão frias...em poucos instantes ele sai de onde esta e vem caminhando na minha direção,posso ver que ele anda mancando como se tive-se com umas das pernas machucadas,mas logo vejo o real motivo disso,em uma das suas mãos ele carrega um pequena pasta mas pesada por sinal.
Meu cigarro já perto do fim,começa a ganhar aquele gosto mais amargo de filtro e resolvo joga-lo fora.
Acendo outro e deixo o queimar aos poucos...enquanto o Diabo não chega ao meu lado....
Já perto consigo ver suas roupas bem alinhadas e limpas,seu casaco marrom que vai até o chão cobrindo outro cassaco mais fino e igualmente marrom,só que dessa vez mais claro,suas luvas de couro pretas e suas grandes botas de combate tamanho 45 bico largo.
Logo que ele percebe que já posso o ver solta um ligeiro sorriso caricato mostrando um belo e juvenil sorriso,seus dentes mesmo no escuro,são brancos como neve que teima em cair sobre nossas cabeças e diferentes dos meus já amarelados pelo tempo e pelo vicio dos cigarros.
Poucos instantes depois lá esta ele ao meu lado e já sinto sua respiração calma e lenta.Ele outra vez sorri para mim,mostrando dessa vez mais os seus dentes e um expressão de prazer escondida e me pede um cigarro.
Sem dizer nada pego meu maço dentro do bolso e o jogo para ele.Ele pega o cigarro e acende de vagar e sem pressa,deixa-o queimar olhando o céu anil escuro pintado de pequenas manchas brancas que caem aos poucos e começa a conversar comigo
" a noite esta tão fria no inferno",
eu apenas posso responder
"posso imaginar" ...
"posso até mesmo dizer que esta nevando em algumas partes"...
"acho isso um tanto quando curioso tenho que admitir"digo em um tom mais irônico....
"você sabe quem sou eu jovem rapaz?"...
"Sim já posso imaginar quem o senhor é"
"Não é engraçado...você ae mesmo com seus cabelos já brancos e um bengala em uma das mãos me chamando de senhor!?"
"Não tanto como sua presença me acompanhando nessa noite fria de inverno".
"Vejo que mesmo depois de perder quase tudo nessa vida ainda conversa a velha ironia humana".
"Depois que você passa dos 60 começa a perder tudo aos poucos e fica pior quando se tem 86,mas a velha ironia humana sempre estará presente".
"Você sabe o que vim fazer?...Não sabe?",me perguntou com o mesmo sorriso de antes,mas agora parecia mais vivo e intenso.
"Sim...sei...",respondo-lhe olhando para baixo.
"E não tem medo do que irá por vir agora?"
"Claro que não,posso dizer que até mesmo já esperava isso há algum tempo,depois de tantos anos por aqui já gastei todo o dinheiro que podia,dormi com mulheres lindas e agora tudo oque quero é deixar esse velho corpo que já não consegue acompanhar os meus desejos para trás".
"Assim as coisas ficam mais fáceis para mim",disse-me o Diabo.
Com a mesma presa com que fumava o seu cigarro ele abre a pequena pasta e tira uma arma igualmente pequena,coloca dentro de um dos bolsos do cassaco marrom e fecha outra vez a pasta,puxa o cigarro com força e vejo a ponta ficar cada vez mais vermelha.
"Bom...se você aceitou de bom grado oque venho te oferecer aqui...melhor andarmos rápido com tudo isso,esta muito frio aqui fora,comece a rezar meu amigo"
Ele sorri e aponta o gatinho para mim,logo ouço dois disparos,um mais agudo e forte que logo se choca com algo e depois outra mais fino que acerta o mesmo lugar do outro,ainda tenho a impressão de ouvir mais um...
meus olhos pesam e começo a sentir um calor saindo do meu peito...sinto uma sensação de dormência me invadindo aos poucos e sono...meus olhos continuam se fechando...se fechando
(a ultima imagem que consigo ver é daquele senhor apagando o cigarro com a ponta de sua bota)
Não sinto mais o frio...meus ouvindo já não conseguem escutar oque esta acontecendo ao meu redor,tudo oque quero e dormir e acordar outro dia para brincar,como fazia quando era apenas uma criança.
Penso na minha mulher e fico feliz de ela ter ido antes de mim,não a deixaria sozinha para me ver nesse estado,logo as coisas vão se apagando e um momento depois me vejo ao lado daquele senhor outra vez.
Caminho ao seu lado até o beco escuro de onde ele saiu...
...e depois não vejo mais nada...

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